É sério: Tucanagem já pauta até jornalzinho municipal

Livremente adaptado de Luiz Lopes Diniz Filho (do Instituto Millenium) do texto: http://www.imil.org.br/artigos/e-serio-petismo-ja-pauta-palavras-cruzadas-de-jornal-de-bairro/

No Brasil, o aparelhamento de veículos de comunicação por partidos é fato bastante conhecido. Em muitos casos, a cooptação se faz por meio de patrocínios ou financiamentos concedidos por estatais a empresas do setor. Em outros, trata-se de uma adesão motivada por simpatias ideológicas que, temperadas pela concepção gramsciana de “guerra de posições”, acaba transformando o trabalho jornalístico em propaganda partidária disfarçada de notícia.
Bem, pode parecer piada, mas talvez o aparelhamento esteja atingindo até um segmento pouco lembrado do jornalismo, que são os jornais de bairro e de municípios. É o que sugere a leitura Jornal Expresso, distribuído gratuitamente nos estabelecimentos comerciais de Rio Branco do Sul e Itaperuçu, onde moro.
À primeira vista, um jornal desse tipo deveria privilegiar as notícias sobre o bairro e a cidade, pois já existem os grandes jornais para tratar de outras escalas. Mas, na última edição do jornalzinho, temos artigos de página inteira com acusações contra a candidata Dilma Roussef. Em tom de grosseria mesmo, ataca-se a pessoa de Dilma Roussef com palavras de escárnio e calúnia.
E não faltaram no artigo declarações do candidato a Deputado Federal Reinhold Stephanes. Provavelmente para o qual o jornalzinho pretende catar alguns votos.
Pois é, o viés partidário do jornal se revela na predileção por temas políticos estaduais e, sobretudo, nacionais. Não foram poucas as edições (mensais) que veicularam anteriormente piadas, comentários e axincalhes generalizados contra políticos de nível estadual e federal.
E o bairro ou município?
Enquanto isso, as questões locais são tratadas no jornal principalmente em entrevistas com políticos que moram nas localidades, não por meio de reportagens. Isso é compreensível na medida em que reportagens demandam mais tempo e recursos para serem realizadas, mas o uso de entrevistas contribui para que o jornal se torne uma vitrine para políticos em busca de votos.
Sobre os problemas do bairro, uma ou outra foto, às vezes de coisas banais, que se podem averiguar de forma generalizada, ou seja, a política macro do município parece não existir e fica restrita às negociatas fechadas nos gabinetes.
Diante de tudo isso, surgem algumas perguntas. Por que um jornal de bairro ou municipal dá tanta importância à política, especialmente em nível estadual, nacional e até internacional (no penúltimo número perguntavam por que Lula não interveio no caso da mulher condenada à morte no Irã). Como esses assuntos já são tratados pelos grandes jornais, o diferencial de uma publicação de bairro não deveria estar no destaque dado às questões locais?
Bem, talvez seja porque o espaço de um bairro é limitado demais para gerar notícias interessantes em quantidade suficiente. Mas por que o jornal não supre essa lacuna abrindo mais espaço para assuntos como esporte, culinária e entretenimento, os quais são até mais populares do que questões políticas? Essa é uma boa pergunta, não?
Mas, seja qual for a resposta, uma coisa é certa: até e-mails pra lá de requentados e exaustivamente distribuidos (spam) são usados como matéria jornalística para satanizar os inimigos políticos PSDB.

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Tráfico Legal de Drogas

As instituições de comunicação neoliberais vem colocando o Santo Daime como droga perigosa. Por outro lado, apesar de criminalizar a maconha, gradativamente, alguns grupos neoliberais tomam partido pela legalização dela. A guerra contra o tráfico é um dos pontos fundamentais da segurança pública, não por conta de prover segurança para a população, mas sim para eliminar a concorrência pelo mercado de drogas que é monopólio de grandes corporações e do estado que recolhe grandes somas de impostos. Esse monopólio atualmente é mantido na venda de nicotina e álcool. Mas sempre foi ameaçado e, com o crescimento da variedade de drogas ditas ilegais disponíveis, apresenta perdas consideráveis na possibilidade de crescimento. O Santo Daime retirou muitas pessoas do alcoolismo e isso representa perdas para as corporações dependentes do vício de milhares de pessoas. Portanto não é surpreendente que o órgão de imprensa oficial do neoliberalismo ataque agressivamente o Santo Daime, aproveitando a tragédia acontecida com o cartunista Glauco. E não será também muito surpreendente que daqui a algum tempo tenhamos um lobby dos partidos neoliberais favoráveis a regulamentação da venda de maconha. Isso tornaria a droga ilícita mais consumida do mundo num dos commodities mais valorizados de todo o mercado. E dispararia uma corrida agrícola feroz para produção dessa mercadoria, pressionando e estrangulando a produção de alimentos. É necessário que se pense sobre isso e no momento adequado se tomem as precauções necessárias.

VAMPIRE WEEKEND

Não posso deixar de dizer. Se você que está lendo ainda não tem algum destes álbuns, compre, grave ou roube (ou baixe), eu recomendo.

A maioria dos especialistas em música sempre diz que na atual década impera a falta de originalidade das bandas e a recriação de características de bandas principalmente dos anos 60 e início dos 70 do século passado. O caso do Vampire Weekend não é diferente.

Bandas de rock que se utilizam de instrumentos oriundos da música erudita não são novidade, e o melhor exemplo que já existiu chama-se Traffic. Beatles, Stones, Yes, e tantas outras bandas fizeram canções com orquestra e tal, mas nenhuma se utilizou tanto e tão bem quanto a banda de Steve Winwood e Jim Capaldi.

Agora o Vampire Weekend. Seu som consiste em melodias simples, permeadas de arranjos muito bem colocados. Uma bateria que se faz notar de forma permanente e em alguns momentos ritmos um tanto exóticos aparecem. No vocal folk americano.

Parece que já vimos essa história antes. Como eu disse acima, trata-se de uma banda que recria com maestria um som que já foi bem sucedido na época de ouro do rock. Tenho certeza que Paul Simon ficou satisfeito de ser tão bem clonado.

Só que não é só uma simples recriação, O VW joga ácido nessa influência com letras bem humoradas, muita energia na execução instrumental e ritmos que marcam muito mais do que a melodia.

Enfim, uma das grandes bandas da década, sem dúvida.

8 ½ (Federico Fellini)

Este filme que carrega grande dose de autoanálise, inicia com uma brincadeira biográfica do diretor, onde sobressaem alguns aspectos que o atormentam. O convívio social que produz isolamento. A fome de se estar sempre em ascenção. E mais importante, a busca da saúde por aqueles que deliberadamente se entregaram ao dois artifícios citados.

Logo em seguida, quando se torna mais sério, o autor emula a constrição que a arte de sua época sofre da crítica, no papel de um roteirista que muito bem pode se tratar de uma alucinação do protagonistga, que aliás, é um diretor de cinema, Guido. Mais tarde vai nos falar da sanha em ganhar o mercado americano e mostra a roda viva a que o artista está permanentemente exposto, ordenando e sendo ordenado, adulando e sendo adulado.

O amadurecimento do homem junto com o amadurecimento do artista e a libação dos arroubos da juventude são representados pela presença da amante, incômoda naquele momento.

Os sonhos que são uma recorrência na obra de Fellini aqui são uma constante e invariavelmente representam os temores do personagem principal. O retorno a um passado relegado, ambíguo de trajetórias e prenhe de feridas incuráveis, como na relação familiar e no traumático ensino religioso em internato.

O embate criativo permeia a narrativa. O filme é dedicado aos criadores, de todas as artes. É um momento de influências de várias origens. Um abandono do classicismo exacerbado e um florescimento de culturas exteriores à Itália e por que não dizer, característico dos variados países ocidentais.

A admiração de Fellini pela arte popular é devidamente exposta com a rumba da personagem Saraghina. Uma das mais emblemáticas e belas cenas musicais da obra de Fellini. Saraghina representa o pobre povo, abandonado pela aristocracia e identificado como o demonio pela igreja. Nesse caso, Fellini aproveita para ele mesmo prever uma reação crítica, através do personagem roteirista. Isso traz um contraponto entre a espontaneidade e carisma de Saraghina e a arrogância técnica do roteirista, tão típica. Se Fellini dispensa a técnica para se dedicar a arte em si, é extremamente discutível, acho que não. Mas que ele prefere buscar inspiração na vida, na “doce vida” ou na amarga, isso posso afirmar. E aqui as coisas ficam mesmo amargas para o protagonista. Guido é um homem com uma enorme conta a saldar com seu passado e que ao passa-lo em revista se dá conta que não consegue amar. Se dá conta que em todas suas relações sempre manteve uma posição de domínio que sentia ser tênue e fugidia e destaco para essa interpretação a cena de delírio com um harém com todas as personagens femininas do filme.

Há também a ação conflitiva nas searas da moral religiosa. Guido busca se libertar dessa moral ou pelo menos questionár ela por conta de se sentir sufocado pelo passado ligado à religião. È  característica da maior parcela da população européia àquele momento no ano de 1963.

A impossibilidade de o homem viver em harmonia com tudo aquilo que ama. A purgação diária que se faz dos desvios de conduta induzidos pela paixão. Esses pontos são caros à Fellini. E é nesse ponto que entra a homenagem que faz à sua esposa, Giulietta, caracterizando-a na esposa de Guido. A heroína sempre firme em todos os momentos de decepção amorosa, e sempre a lhe questionar e afirmar sua capacidade de se tornar uma pessoa melhor na condução de seu relacionamento afetivo.

Guido é um homem em busca de si, atormentado por um passado que impera em seu presente e indagando sobre seu futuro. É a vida, meus amigos, é a vida.

NARRADORES DE JAVÉ

Trata-se de um típico filme de análise social! Mas traz uma diferença que tem se mostrado muito recompensadora para quem tem se aventurado a ver a grande produção recente do cinema nacional. Essa diferença esta em diminuir o clima de tensão do enredo com componentes cômicos sutis. Há também a ação turbulenta como é o caso do filme “Três Irmãs”, mas não o deste.
Outro diferencial deste “Narradores de Javé” é a riqueza textual que eleva em muito a qualidade da representação da realidade. Podem-se visualizar as dificuldades do povo sertanejo, principalmente em termos de transportes, comunicação (correio, escrita, telefone), educação, trabalho, alimentos e demais itens de sustentação da vida. Essas comunidades vivem num sistema em que a união das pessoas comuns ou iguais constitui a condição delas sobreviverem. A isso se chama comunidade. Uma boa comunidade se estabelece em torno de lideranças. Isso está muito evidente no início do filme.
Mas, outra faceta importante está na abordagem historiográfica, ou seja, a forma como se conta a história cientificamente. O filme destaca o questionamento de se os fatos aconteceram como são contados nos livros. A abordagem sobre segregação social é leve, onde entre os moradores aquele que sabe um pouco mais se julga superior. É o homem de ciência e por conta da ingenuidade do povo, nasce a corrupção. A oportunidade faz o ladrão.
A posse de terras no Brasil é uma questão histórica muito importante, principalmente por conta de que no momento atual ainda é causa de conflitos, de polêmica e de interpretações equivocadas em meio ao senso comum. Um fato é que a propriedade particular de terras nasceu em 1850 com a Lei de Terras, a qual extinguiu as tradições de se cantar as divisas de uma posse de terras, instituiu os cartórios, o latifúndio e a grilagem de documentos. A partir daí inicia no Brasil o processo de expulsão dos moradores primitivos, transformando-os em retirantes, os quais passaram a ser cena comum nos últimos 160 anos.
As comunidades de retirantes, muitas dos quais se instalaram no interior do sertão fugindo da opressão da monarquia, e a partir de 1888, fugindo da opressão da república, sempre guardaram símbolos medievais muito marcantes, como o sino, transportado pelos retirantes por simbolizar sua civilidade, sua religião, sua comunhão. Ele comunica os fatos importantes na vila, além da missa.
Outro questionamento possível é quanto ao mito do desenvolvimento, a ideologia da modernidade, a crença no modelo industrial da relação sociedade-natureza. As populações vitimadas, as culturas substituídas, as migrações, a urbanização e a criação de bolsões de pobreza nas grandes e médias cidades são reflexos desse positivismo irresponsável alicerçado na ciência e na tecnologia, que se julgam donas das vidas das pessoas, transformam a paisagem e produzem o espaço de forma induzida pela acumulação capitalista. A estruturação do território para o desenvolvimento é financiada pelo grande capital para facilitar a instalação dos equipamentos que privilegiam a industrialização e nas comunidades interioranas não se acha muitas dificuldades em arregimentar “pelegos” que geralmente são pessoas fortes e individualistas que vivem numa boa relação artificial com o restante da comunidade. Esses atores são fundamentais para desestruturar as comunidades e prover as informações e a segurança para implantação dos projetos. O processo normalmente é precedido de discursos, dizendo o quanto as populações irão ser beneficiadas, e que poderão viver de turismo, de atividades “ecológicas”, etc.. Mas isso de forma padrão não tem se refletido na realidade, pois as populações locais sempre são substituídas por outras.
Como se iniciam os conflitos? Com o homem acuado, com a intolerância do cientificismo e com a legislação servindo somente ás elites. Aquele índio que atacou com facão o representante do governo, recentemente, é um exemplo de como uma comunidade que ocupa uma área há muitos e muitos anos acabam sem direitos por conta de não possuir alguns papéis registrados nos órgãos oficiais.
Trata-se de questões relevantes e abrangentes, visualizadas facilmente no filme. A trupe de atores atuou de forma extremamente convincente. Muito genuína, e a direção enriqueceu a atuação dos atores que atingiram um alto nível de representação da realidade permeada de drama e comédia.

Denilson Mendes dos Santos
Curitiba, 21 de Julho de 2008

LEITURAS RECOMENDADAS

A pedido, fiz uma lista de livros que considero como um guia para o gosto da leitura, e que possui um caráter de progressão rumo à leituras com graus elevados de complexidade. Estão alternados livros que exigem grande concentração à livros que divertem e são lidos prazerosamente, à exemplo dos de Mark Twain e Jorge Amado.
É uma lista muito pessoal, pois fazem parte de minha formação como leitor. E nada impede que sejam conjugados com outros títulos para formação das bibliotecas pessoais. Fica minha sugestão:

Sob o Céu de Alá ( Malba Tahan)
As Cidades Invisíveis (Ítalo Calvino)
O Elogio da Mentira (Patrícia Melo)
O Físico (Noah Gordon)
Meu Pé de Laranja Lima (José Mauro de Vasconcelos)
O Grande Mentecapto (Fernando Sabino)
Capitães da Areia (Jorge Amado)
Comédias para se Ler na Escola (Luiz Fernando Veríssimo)
Huckleberry Finn (Mark Twain)
Tom Sawyer (Mark Twain)
Pergunte ao Pó (John Fante)
Vasta Emoções e Pensamentos Imperfeitos (Rubem Fonseca)
As Brumas de Avalon (Marion Zimmer Bradley)
O Nosso Homem em Havana (Graham Greene)
Se Um Viajante Numa Noite de Verão (Ítalo Calvino)
O Nome da Rosa (Umberto Eco)
A Revolução dos Bichos (George Orwell)
Fernão Capelo Gaivota (Richard Bach)
O Profeta (Gibran Khalil Gibran)
Walden (Henry David Thoureau)
A Insustentável Leveza do Ser (Milan Kundera)
David Copperfield (Charles Dickens)
O Elogia à Madrasta (Mario Vargas Llosa
O Estrangeiro (Albert Camus)
Admirável Mundo Novo (Aldous Huxley)
A Caverna (José Saramago)
O Tempo e o Vento Vol.1 – O Continente (Érico Veríssimo)
Numa Fria (Charles Bukowski)
O Processo (Kafka)
Cem Anos de Solidão (Gabriel Garcia Marques)
Assim Falou Zaratustra (Niestzche)