Pode ser que eu esteja enganado mas penso que o mundo se esvaziando de ideologia, se esvazia também de humanidade. E que a precarização de tudo que é mais importante para nossa sociedade, seja saúde seja educação é culpa da confiança desenfreada de que já somos suficientemente bons para não sermos melhores. Digo isso depois de ver o vazio que são as pessoas que freqüentam a maioria dos bancos escolares superiores, principalmente dos cursos ditos técnicos ou de engenharia. Me surpreendo dia a dia com a qualidade intelectual da geografia, principalmente com a turma da manhã com os quais fiz Geografia Política e Geopolítica e com nosso pessoal do sindicato, e lamento que não tenhamos ainda uma ciência geográfica com a mesma força moral que atualmente tem a Sociologia, mas quem sabe aí esteja uma oportunidade, não é mesmo. Sabe-se que nosso tempo é o tempo da mercadoria, que o ensino é mercadoria valiosa onde alguns dos mascates mais mordazes são ligados á igreja católica. Nessa conjunção se imbricam as condições para propagação de arriscadas estratégias corporativas de domínio do mercado da educação. Digo isso porque a proliferação de instituições de ensino deu-se vertiginosamente em Curitiba e creio que pais afora também. E nesse misto de concorrência com conveniência imagino que resida o cerne da precarização de profissões tão importantes como a medicina e advocacia. Não por culpa das instituições mas sim da sociedade ávida pelo status dessas profissões e á mercê da economia de mercado e do capitalismo. Advogados que nunca leram Goethe, médicos que não sabem nada sobre religião, essa é a nossa realidade. Capacidade de autocrítica e generosidade estão fora de cogitação e o que vale mesmo é a competição que já é super nos dias de hoje. Reflexão e humanismo são out, o in é andar na moda não importa como. Só queria não ter que dizer isso, mas parece que caminhamos novamente para uma idade média, só que desta vez com iPhones e redes sociais para mostrar-mos quem somos fazendo todos as mesmas coisas. Sem esquecer que este texto está em um blog e é parte deste processo. Mas ainda tem gente que faz a diferença e agradeço a Deus porque os conheço. São homens e mulheres que já sentiram o mundo se orientando para esse destino e tentam remar contra a corrente com braçadas largas. Se você que está lendo isso se sente um destes, não desista, cada um de nós faz uma diferença danada, principalmente se você for um professor.

 

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Confesso que tinha uma expectativa negativa quanto ao filme Tropa de Elite 2. Bem, não preciso dizer que achei que o primeiro é um filme vergonhoso, fascista e maniqueísta. Achei que este segundo não iria ser diferente e por conta disso posterguei ao máximo a oportunidade de assistir o filme. Penso se não houve certo planejamento do diretor José Padilha, de fazer um filme fácil num primeiro momento, e depois criar um filme mais denso e politizado. Até mesmo o início desse segundo filme é muito mais um chamariz do que um início coerente de um grande enredo. O que eu já vi de gente falando que gostou mais do começo do filme. Imagino que a revista Veja (não li nada ainda sobre o filme, evitei para não criar filtros) não tenha recebido esta continuação com a mesma empolgação que recebeu o primeiro, pois se no primeiro havia um vilão evidente e era pobre e favelado, desta vez os canos apontam pra outra direção, na direção que aquela revista tem compromisso de defesa. José Padilha cria no filme algumas armadilhas cerebrais. Só quem pensa pra flagrar. Por isso expõe a sociologia de forma simulada. A ação violenta nos presídios justificando a ação violenta nas favelas é a tônica do início do filme. Depois, bem depois vamos ver que são coisas distintas e atingem problemas distintos. Na primeira se age contra marginais, sem chance de erros, na segunda o cidadão passa a ser a maior vítima, pois o morador honesto da favela, durante as ocupações de morro sofre muito mais do que os marginais. Outro momento em que o diretor atira para um lado e tenta acertar outro é quando o protagonista é taxativo em classificar a intectualidade de esquerda como maconheiros. Perto do final quando o Cel.Nascimento admite que estava errando é que podemos passar uma borracha por todas as afirmações que ele fez. Mas aí é o espírito de bravura que prevalece e a reação para a burrice que ele vinha cometendo é fazer o que ele sabe fazer. Como diria o Groo:”O corta corta…”. Não dá muito lugar para novas conjecturas e afirmações. José Padilha manobra seu personagem com esmero científico. Se no primeiro filme os protagonistas usavam o aparelho de estado para promover uma vingança pessoal, para fazer o papel do judiciário e legislativo, decretando pena de morte, julgando e executando de uma vez só, agora se encara a realidade, o Cel.está nu, mas não está só, e isso é muito importante, não se pode ser herói sozinho. E não se vence o crime somente com uma arma na mão. É preciso coragem, audácia e desprendimento para denunciar, para depor, para derrubar o “sistema”. O que fica é a conclusão de que nada é o que parece. De que a realidade é muito mais complicada do que tentam nos fazer entender. De que o vilão, ás vezes é apenas um joguete nas mãos do verdadeiro canalha, como dizia Bezerra da Silva. E de que a esquerda no Brasil trabalha sim a favor dos valores éticos e morais.

Ler pode ser uma coisa catastrófica, dolorosa mesmo. Por que implica pensar. Diferente de ver tv, assistir certos filmes ou ouvir rádio onde as idéias vem prontas e não há muito tempo para se concordar ou refutar essas idéias.

Por vezes tenho vontade de parar com tudo isso, e agora sei mais do que nunca porque é que parei de ler lá na adolescência com 17 anos. Li muito entre os 14 e os 17, mas cheguei naquele patamar em que começava a ver as incoerências defendidas por jornalistas da Folha de São Paulo e de toda a grande imprensa, aliás uma revista que me fez ver a realidade por trás das notícias foi justamente a que se chamava Imprensa. Incoerências estas que depois acabei vendo que atendiam a demandas oriundas do setor econômico.

Aprender a arte da oratória, escrita e falada para poder vender ao melhor preço pra mim não é ação que traga satisfação, vendo que tantos lutaram para que nossa civilização atingisse o patamar de civilidade e humanidade em que nos encontramos. E o que tenho visto é um retorno a um obscurantismo onde a capacidade intelectual é utilizada para defender os mais grotescos pontos de vista. Não estou falando de defesa de lados políticos, esquerda e direita ou coisas do gênero, mas de defender direitos civis. De defender um retrocesso cultural e político que legitima a permanência de velhas oligarquias travestidas de novidade.

Pode parecer que defendo a esquerda ou o PT, mas não é verdade, o que me parece é que a disputa pelo poder cegou a todos e cada vez mais tanto um quanto o outro monetarizam os aspectos da vida social e até da vida particular.

Nazareth, sempre bem vindo a Curitiba

Por que o Nazareth é tão importante? Bom, não necessitaria de muito. Algumas canções e bastaria para colocar essa banda em local de destaque na música mundial. Mas, para quem frequentou o Lets’Dance, também conhecido como Clube 19, ou teve a honra de ir a algum sarauzinho animado pelo Teco e seu Kiter Som, ou então, em maiores reminiscências, o Porão na Xavier da Silva, ou aquele som só de loucos lá perto do Cefet, o Naza é parte da história. Ou, mais do que isso, é parte da vida da pessoa. Até esses dias ali no Abranchão, rolava no domingo uma meia hora de som pesado, onde o Nazareth dominava.

Mais ainda, o Nazareth é uma banda fora do circuitão. Fora da mídia. Pode ver como são raras as matérias em revistas especializadas que falem do Nazareth (e isso já nos anos 70 e 80, podem pegar revistas da época). Tudo que eles tem e sempre tiveram é música no mais alto grau de combustão e emoção. Desde baladas românticas nada óbvias (Dream On, Moonlight Eyes) até rock’n’rolls rasgados (Telegram, This Flight Tonight, etc.), nus e crus, foram sempre executados com a maior espontaneidade. Foi o que pude constatar em uma noite memorável na saudosa casa noturna Aeroanta de Curitiba. Só não foi o melhor show que já vi por conta da grande confusão instalada dentro e fora que gerou atraso e um set curto porém bem executado. Por isso, é sempre bem vinda a banda à Curitiba, como aconteceu há algumas semanas.

Sobre o Tiririca

O fato de Tiririca ser o Deputado Federal que mais obteve votos nas últimas eleições pode ser considerado uma aberração para alguns, uma gozação para muitos e uma demonstração política das massas para outros.

Por quê uma demonstração política? Ora, a uns quinze anos, Luiz Inácio já havia dito que no congresso haviam “quinhentos picaretas com anel de doutor”. Desta feita, coube ao povo demonstrar que muito mais que palhaços, eleitores são feras. Puxaram o tapete de medalhões da política paulista e elegeram o palhaço. E o palhaço, analfabeto talvez, vai a um congresso onde a primeira coisa que vai enfrentar será o escárnio e o desprezo. Depois, com certeza vai haver uma corrida para cooptá-lo a votar de acordo com os interesses de determinado grupo. Para qual grupo? Se Tiririca fizer o que o povo espera que faça, ele vai ludibriar a todos e deixar muito político furioso. Cumpriria com os anseios de seu eleitorado. Mas será que o palhaço vai continuar sendo palhaço? Com as finanças lobbystas cada dia crescendo mais?

Quando chegaram ao Brasil, os europeus foram gradativamente desqualificando o modo de vida nativo. Classificaram como atrasado o modo de habitação utilizado, as vestimentas e a alimentação. Os nativos desta terra se nutriam de produtos que em geral não necessitavam de cultivo, compartilhavam igualmente nas aldeias todo o alimento derivado da caça e da colheita que em geral se constituia de produtos agrosilvopastoris, ou seja de animais criados soltos ou caçados e de frutas e legumes naturais da floresta. Cobriam minimamente o corpo pois desconheciam a vergonha e os conceitos estéticos derivados da moral européia. E habitavam edificações coletivas para manterem sua comunhão na proteção mútua e na confiança.

O europeu julgava tudo isso obra de selvagens e habitando edificações fortificadas, vestido pesados panos e fardas instituiu como noção de civilização os modos e costumes europeus. Rotulou a sua maneira de fazer as coisas de certa e as maneiras diferentes de erradas.

Em grande parte isso partiu de uma estratégia de orientar os nativos a concorrerem pelo consumo da matriz tecnológica européia. Desqualificar aquilo que vestia, nutria e abrigava os nativos era uma das maneiras de tornar estes povos nus, desnutridos e desabrigados, e por isso dependentes dos bons modos europeus. Foram poucos os grupos que resistiram a esses ataques retóricos que permanecem até hoje como um dos fundamentos do senso comum.

A cultura do brasileiro, tradicional é um dos exemplos disso de que falo, pois a cada geração, os mais novos se ressentem de conviver com a herança cultural, para adotar os modos (mas não os costumes) de outros povos. Tem sido assim com as danças como o Boi Mamão, o Fandango do Paraná, a Congada, a Folia de Reis, o Maracatu, o Frevo, o Pau de Fita, a Xula Gaúcha, entre tantas outras.

No dizer de alguns intelectuais, o brasileiro gosta de macaquear os modos que são apresentados como modernos pelos meios de comunicação. O brasileiro ouve música estrangeira sem entender o que está sendo cantado, dança rap sem saber qual o sentido do movimento e da cultura rap americana e adota esportes que nasceram e possuem seu centro de atividades em países centrais da economia mundial. Em geral na música tem sido privilegiada sua aptidão ritmica em detrimento da melodia, harmonia e letra. Tem sido relegada pelo grande público a nossa música, e mesmo o samba, que resistiu durante muito tempo tem se transformado numa fórmula bastante próxima da música romântica americana. A própria bossa nova foi já uma tentativa de macaquear o jazz.

Na esteira do totalitarismo midiático, os lugares perdem a identidade para se tornarem uma coisa só, um não lugar. Uma coisa que pode estar em qualquer lugar do mundo e não representa lugar nenhum. E as pessoas, serão não pessoas? Se perdem suas características de personalidade única para serem o mesmo em toda parte, talvez seja o caso.

É sério: Tucanagem já pauta até jornalzinho municipal

Livremente adaptado de Luiz Lopes Diniz Filho (do Instituto Millenium) do texto: http://www.imil.org.br/artigos/e-serio-petismo-ja-pauta-palavras-cruzadas-de-jornal-de-bairro/

No Brasil, o aparelhamento de veículos de comunicação por partidos é fato bastante conhecido. Em muitos casos, a cooptação se faz por meio de patrocínios ou financiamentos concedidos por estatais a empresas do setor. Em outros, trata-se de uma adesão motivada por simpatias ideológicas que, temperadas pela concepção gramsciana de “guerra de posições”, acaba transformando o trabalho jornalístico em propaganda partidária disfarçada de notícia.
Bem, pode parecer piada, mas talvez o aparelhamento esteja atingindo até um segmento pouco lembrado do jornalismo, que são os jornais de bairro e de municípios. É o que sugere a leitura Jornal Expresso, distribuído gratuitamente nos estabelecimentos comerciais de Rio Branco do Sul e Itaperuçu, onde moro.
À primeira vista, um jornal desse tipo deveria privilegiar as notícias sobre o bairro e a cidade, pois já existem os grandes jornais para tratar de outras escalas. Mas, na última edição do jornalzinho, temos artigos de página inteira com acusações contra a candidata Dilma Roussef. Em tom de grosseria mesmo, ataca-se a pessoa de Dilma Roussef com palavras de escárnio e calúnia.
E não faltaram no artigo declarações do candidato a Deputado Federal Reinhold Stephanes. Provavelmente para o qual o jornalzinho pretende catar alguns votos.
Pois é, o viés partidário do jornal se revela na predileção por temas políticos estaduais e, sobretudo, nacionais. Não foram poucas as edições (mensais) que veicularam anteriormente piadas, comentários e axincalhes generalizados contra políticos de nível estadual e federal.
E o bairro ou município?
Enquanto isso, as questões locais são tratadas no jornal principalmente em entrevistas com políticos que moram nas localidades, não por meio de reportagens. Isso é compreensível na medida em que reportagens demandam mais tempo e recursos para serem realizadas, mas o uso de entrevistas contribui para que o jornal se torne uma vitrine para políticos em busca de votos.
Sobre os problemas do bairro, uma ou outra foto, às vezes de coisas banais, que se podem averiguar de forma generalizada, ou seja, a política macro do município parece não existir e fica restrita às negociatas fechadas nos gabinetes.
Diante de tudo isso, surgem algumas perguntas. Por que um jornal de bairro ou municipal dá tanta importância à política, especialmente em nível estadual, nacional e até internacional (no penúltimo número perguntavam por que Lula não interveio no caso da mulher condenada à morte no Irã). Como esses assuntos já são tratados pelos grandes jornais, o diferencial de uma publicação de bairro não deveria estar no destaque dado às questões locais?
Bem, talvez seja porque o espaço de um bairro é limitado demais para gerar notícias interessantes em quantidade suficiente. Mas por que o jornal não supre essa lacuna abrindo mais espaço para assuntos como esporte, culinária e entretenimento, os quais são até mais populares do que questões políticas? Essa é uma boa pergunta, não?
Mas, seja qual for a resposta, uma coisa é certa: até e-mails pra lá de requentados e exaustivamente distribuidos (spam) são usados como matéria jornalística para satanizar os inimigos políticos PSDB.