Buen vivir após o modernismo?

 

 

Chamam a nossa época de Pós-moderna. Culturalmente falando, principalmente. Por quê? Há quem pergunte, e muitas respostas vem prontamente. Mais prontas do que prontamente. Depois do modernismo vem o pós-modernismo, é uma delas. Porque houve um salto rumo à uma nova modernização do mundo, eu já ouvi também. Porque o modernismo alcançou o ápice de sua perfeição e agora é a época das experimentações, é mais uma. Esta última pode ter sua coerência para as artes plásticas, mas não é suficiente.

De certa forma o pós-modernismo tem a ver com o comportamento das pessoas, primeiramente. Tem a ver ainda com a produção do espaço que a sociedade promove no tempo histórico presente. E pode ser notado na produção literária e científica atual, bem como na artística e cultural. E como nada neste mundo funciona fora do circuito, a produção de bens de consumo, prestação de serviços e o comércio também são afetados por esse processo, quando não são os estimuladores de algumas características dele.

Bom, discutir o pós-modernismo num post de blog seria presunção, já que alguns livros de 500 páginas ainda não se fizeram eficientes o suficiente para isso, mas o que quero colocar é uma das feições do pós-modernismo que é a transformação na conduta moral e religiosa na maioria das sociedades urbanas atuais. Entre uma e outra teoria postulada por intelectuais vem tendo penetração cada vez maior a perspectiva ateísta. Dentre elas faz sucesso a perspectiva de Richard Dawkins. Longe de querer criticá-lo só quero notar que se deve ter cuidado com a leitura de seus textos. O que mais tenho visto é a apropriação de termos como o “memê” de forma distorcida. Mas o mais nítido no pós-modernismo é a perda da fé e a referência anti-ética na sociedade, onde uma coisa é casada com a outra. Ou seja, se já não há a preocupação com uma força superior que dita a conduta ética da sociedade, então o sujeito passa a fazer sua ética, que dentro do tecido social passa a ser conflitante. Não é aqui o caso também de retornarmos ao niilismo de Niezstche e tão pouco trata-se de seu super-homem. A coisa tá mais pra Rafinha Bastos, ou seja numa superbanalização do sujeito social. E o que vejo é isso refletindo numa crescente perda de virtude na busca de profissões, cursos superiores e atividades. Melhor dizendo, a maioria das pessoas não busca realizar-se pelo aperfeiçoamento da sociedade, mas sim pelo acúmulo de vantagens que puder obter. Fora isso, ainda vem o descaso com a vida em comunidade, onde o individualismo é alimentado pelo poder de consumo, mera ilusão de poder.  Daí vem a imagem de médicos que atendem mal e porcamente seus pacientes e de pessoas que não estão nem aí com isso, não se organizam coletivamente nem sequer reclamam, se instalando na famosa zona de conforto dos que se contentam em poder pagar inúmeras prestações.

Freokonomics é um livro sem muita utilidade, mas que teve seu período de modismo. Mas ali está contido um pouco disso de que falo. Quando o que estabelece a colocação das pessoas no funcionamento da sociedade é a quantidade de vantagens que ela deve auferir, e o livro é claro nisso, o distanciamento das classes sociais fica indefinido, ou então definido pelo que se consome. Apenas acredito, ao contrário, que para o bem da sociedade, o individualismo e o consumo não devem prevalecer.  O acesso aos benefícios mais úteis de nossa tecnologia é que definem as classes sociais hoje, a meu ver. E não o acesso à Ipads, Toyotas e condomínios como querem nos fazer crer. Benefícios como saúde e educação de qualidade; Lazer e qualidade de vida; convívio e troca de experiências com familiares e amigos;  Conhecer e ter orgulho da biografia de pais, avôs e demais ascendentes; essas coisas e outras mais é que eu acho que realmente tem valor e que só estão verdadeiramente acessíveis a uma parcela pequena de nossa sociedade hoje. Domenico de Masi disse e repete ainda que a terciarização da economia daria mais tempo para o homem aproveitar com as coisas que realmente importam na vida, no entanto, cada vez mais as pessoas estão se comprometendo com trabalho, com acumular funções, ganhar cada vez mais e buscando resultados em termos de acumulação de valores financeiros. Os valores imateriais não se consagraram na cultura atual.

E volto ao tema inicial. Não há valor imaterial quando não há princípios sólidos e construídos sobre uma tradição familiar e social com laços de solidariedade e fraternidade. Pode parecer que eu quero lustrar o já desgastado modernismo e suas ideologias. Mas não podemos admitir o fim da história tal qual nos contam. O fim da história é outro e não passa por uma sociedade dominada pelo totalitarismo da mídia e de seus papas. Não passa pelo totalitarismo do mercado e seu evangelho consumo. Quero acreditar que existam pessoas que discordem da maioria e queiram apenas “buen vivir”, sem ter que se matar numa competição cujos vencedores não são os competidores. Se isso passa pelo viés religioso, cabe ainda refletir sobre isso.

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