Nazareth, sempre bem vindo a Curitiba

Por que o Nazareth é tão importante? Bom, não necessitaria de muito. Algumas canções e bastaria para colocar essa banda em local de destaque na música mundial. Mas, para quem frequentou o Lets’Dance, também conhecido como Clube 19, ou teve a honra de ir a algum sarauzinho animado pelo Teco e seu Kiter Som, ou então, em maiores reminiscências, o Porão na Xavier da Silva, ou aquele som só de loucos lá perto do Cefet, o Naza é parte da história. Ou, mais do que isso, é parte da vida da pessoa. Até esses dias ali no Abranchão, rolava no domingo uma meia hora de som pesado, onde o Nazareth dominava.

Mais ainda, o Nazareth é uma banda fora do circuitão. Fora da mídia. Pode ver como são raras as matérias em revistas especializadas que falem do Nazareth (e isso já nos anos 70 e 80, podem pegar revistas da época). Tudo que eles tem e sempre tiveram é música no mais alto grau de combustão e emoção. Desde baladas românticas nada óbvias (Dream On, Moonlight Eyes) até rock’n’rolls rasgados (Telegram, This Flight Tonight, etc.), nus e crus, foram sempre executados com a maior espontaneidade. Foi o que pude constatar em uma noite memorável na saudosa casa noturna Aeroanta de Curitiba. Só não foi o melhor show que já vi por conta da grande confusão instalada dentro e fora que gerou atraso e um set curto porém bem executado. Por isso, é sempre bem vinda a banda à Curitiba, como aconteceu há algumas semanas.

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Sobre o Tiririca

O fato de Tiririca ser o Deputado Federal que mais obteve votos nas últimas eleições pode ser considerado uma aberração para alguns, uma gozação para muitos e uma demonstração política das massas para outros.

Por quê uma demonstração política? Ora, a uns quinze anos, Luiz Inácio já havia dito que no congresso haviam “quinhentos picaretas com anel de doutor”. Desta feita, coube ao povo demonstrar que muito mais que palhaços, eleitores são feras. Puxaram o tapete de medalhões da política paulista e elegeram o palhaço. E o palhaço, analfabeto talvez, vai a um congresso onde a primeira coisa que vai enfrentar será o escárnio e o desprezo. Depois, com certeza vai haver uma corrida para cooptá-lo a votar de acordo com os interesses de determinado grupo. Para qual grupo? Se Tiririca fizer o que o povo espera que faça, ele vai ludibriar a todos e deixar muito político furioso. Cumpriria com os anseios de seu eleitorado. Mas será que o palhaço vai continuar sendo palhaço? Com as finanças lobbystas cada dia crescendo mais?

Quando chegaram ao Brasil, os europeus foram gradativamente desqualificando o modo de vida nativo. Classificaram como atrasado o modo de habitação utilizado, as vestimentas e a alimentação. Os nativos desta terra se nutriam de produtos que em geral não necessitavam de cultivo, compartilhavam igualmente nas aldeias todo o alimento derivado da caça e da colheita que em geral se constituia de produtos agrosilvopastoris, ou seja de animais criados soltos ou caçados e de frutas e legumes naturais da floresta. Cobriam minimamente o corpo pois desconheciam a vergonha e os conceitos estéticos derivados da moral européia. E habitavam edificações coletivas para manterem sua comunhão na proteção mútua e na confiança.

O europeu julgava tudo isso obra de selvagens e habitando edificações fortificadas, vestido pesados panos e fardas instituiu como noção de civilização os modos e costumes europeus. Rotulou a sua maneira de fazer as coisas de certa e as maneiras diferentes de erradas.

Em grande parte isso partiu de uma estratégia de orientar os nativos a concorrerem pelo consumo da matriz tecnológica européia. Desqualificar aquilo que vestia, nutria e abrigava os nativos era uma das maneiras de tornar estes povos nus, desnutridos e desabrigados, e por isso dependentes dos bons modos europeus. Foram poucos os grupos que resistiram a esses ataques retóricos que permanecem até hoje como um dos fundamentos do senso comum.

A cultura do brasileiro, tradicional é um dos exemplos disso de que falo, pois a cada geração, os mais novos se ressentem de conviver com a herança cultural, para adotar os modos (mas não os costumes) de outros povos. Tem sido assim com as danças como o Boi Mamão, o Fandango do Paraná, a Congada, a Folia de Reis, o Maracatu, o Frevo, o Pau de Fita, a Xula Gaúcha, entre tantas outras.

No dizer de alguns intelectuais, o brasileiro gosta de macaquear os modos que são apresentados como modernos pelos meios de comunicação. O brasileiro ouve música estrangeira sem entender o que está sendo cantado, dança rap sem saber qual o sentido do movimento e da cultura rap americana e adota esportes que nasceram e possuem seu centro de atividades em países centrais da economia mundial. Em geral na música tem sido privilegiada sua aptidão ritmica em detrimento da melodia, harmonia e letra. Tem sido relegada pelo grande público a nossa música, e mesmo o samba, que resistiu durante muito tempo tem se transformado numa fórmula bastante próxima da música romântica americana. A própria bossa nova foi já uma tentativa de macaquear o jazz.

Na esteira do totalitarismo midiático, os lugares perdem a identidade para se tornarem uma coisa só, um não lugar. Uma coisa que pode estar em qualquer lugar do mundo e não representa lugar nenhum. E as pessoas, serão não pessoas? Se perdem suas características de personalidade única para serem o mesmo em toda parte, talvez seja o caso.