VAMPIRE WEEKEND

Não posso deixar de dizer. Se você que está lendo ainda não tem algum destes álbuns, compre, grave ou roube (ou baixe), eu recomendo.

A maioria dos especialistas em música sempre diz que na atual década impera a falta de originalidade das bandas e a recriação de características de bandas principalmente dos anos 60 e início dos 70 do século passado. O caso do Vampire Weekend não é diferente.

Bandas de rock que se utilizam de instrumentos oriundos da música erudita não são novidade, e o melhor exemplo que já existiu chama-se Traffic. Beatles, Stones, Yes, e tantas outras bandas fizeram canções com orquestra e tal, mas nenhuma se utilizou tanto e tão bem quanto a banda de Steve Winwood e Jim Capaldi.

Agora o Vampire Weekend. Seu som consiste em melodias simples, permeadas de arranjos muito bem colocados. Uma bateria que se faz notar de forma permanente e em alguns momentos ritmos um tanto exóticos aparecem. No vocal folk americano.

Parece que já vimos essa história antes. Como eu disse acima, trata-se de uma banda que recria com maestria um som que já foi bem sucedido na época de ouro do rock. Tenho certeza que Paul Simon ficou satisfeito de ser tão bem clonado.

Só que não é só uma simples recriação, O VW joga ácido nessa influência com letras bem humoradas, muita energia na execução instrumental e ritmos que marcam muito mais do que a melodia.

Enfim, uma das grandes bandas da década, sem dúvida.

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8 ½ (Federico Fellini)

Este filme que carrega grande dose de autoanálise, inicia com uma brincadeira biográfica do diretor, onde sobressaem alguns aspectos que o atormentam. O convívio social que produz isolamento. A fome de se estar sempre em ascenção. E mais importante, a busca da saúde por aqueles que deliberadamente se entregaram ao dois artifícios citados.

Logo em seguida, quando se torna mais sério, o autor emula a constrição que a arte de sua época sofre da crítica, no papel de um roteirista que muito bem pode se tratar de uma alucinação do protagonistga, que aliás, é um diretor de cinema, Guido. Mais tarde vai nos falar da sanha em ganhar o mercado americano e mostra a roda viva a que o artista está permanentemente exposto, ordenando e sendo ordenado, adulando e sendo adulado.

O amadurecimento do homem junto com o amadurecimento do artista e a libação dos arroubos da juventude são representados pela presença da amante, incômoda naquele momento.

Os sonhos que são uma recorrência na obra de Fellini aqui são uma constante e invariavelmente representam os temores do personagem principal. O retorno a um passado relegado, ambíguo de trajetórias e prenhe de feridas incuráveis, como na relação familiar e no traumático ensino religioso em internato.

O embate criativo permeia a narrativa. O filme é dedicado aos criadores, de todas as artes. É um momento de influências de várias origens. Um abandono do classicismo exacerbado e um florescimento de culturas exteriores à Itália e por que não dizer, característico dos variados países ocidentais.

A admiração de Fellini pela arte popular é devidamente exposta com a rumba da personagem Saraghina. Uma das mais emblemáticas e belas cenas musicais da obra de Fellini. Saraghina representa o pobre povo, abandonado pela aristocracia e identificado como o demonio pela igreja. Nesse caso, Fellini aproveita para ele mesmo prever uma reação crítica, através do personagem roteirista. Isso traz um contraponto entre a espontaneidade e carisma de Saraghina e a arrogância técnica do roteirista, tão típica. Se Fellini dispensa a técnica para se dedicar a arte em si, é extremamente discutível, acho que não. Mas que ele prefere buscar inspiração na vida, na “doce vida” ou na amarga, isso posso afirmar. E aqui as coisas ficam mesmo amargas para o protagonista. Guido é um homem com uma enorme conta a saldar com seu passado e que ao passa-lo em revista se dá conta que não consegue amar. Se dá conta que em todas suas relações sempre manteve uma posição de domínio que sentia ser tênue e fugidia e destaco para essa interpretação a cena de delírio com um harém com todas as personagens femininas do filme.

Há também a ação conflitiva nas searas da moral religiosa. Guido busca se libertar dessa moral ou pelo menos questionár ela por conta de se sentir sufocado pelo passado ligado à religião. È  característica da maior parcela da população européia àquele momento no ano de 1963.

A impossibilidade de o homem viver em harmonia com tudo aquilo que ama. A purgação diária que se faz dos desvios de conduta induzidos pela paixão. Esses pontos são caros à Fellini. E é nesse ponto que entra a homenagem que faz à sua esposa, Giulietta, caracterizando-a na esposa de Guido. A heroína sempre firme em todos os momentos de decepção amorosa, e sempre a lhe questionar e afirmar sua capacidade de se tornar uma pessoa melhor na condução de seu relacionamento afetivo.

Guido é um homem em busca de si, atormentado por um passado que impera em seu presente e indagando sobre seu futuro. É a vida, meus amigos, é a vida.