NARRADORES DE JAVÉ

Trata-se de um típico filme de análise social! Mas traz uma diferença que tem se mostrado muito recompensadora para quem tem se aventurado a ver a grande produção recente do cinema nacional. Essa diferença esta em diminuir o clima de tensão do enredo com componentes cômicos sutis. Há também a ação turbulenta como é o caso do filme “Três Irmãs”, mas não o deste.
Outro diferencial deste “Narradores de Javé” é a riqueza textual que eleva em muito a qualidade da representação da realidade. Podem-se visualizar as dificuldades do povo sertanejo, principalmente em termos de transportes, comunicação (correio, escrita, telefone), educação, trabalho, alimentos e demais itens de sustentação da vida. Essas comunidades vivem num sistema em que a união das pessoas comuns ou iguais constitui a condição delas sobreviverem. A isso se chama comunidade. Uma boa comunidade se estabelece em torno de lideranças. Isso está muito evidente no início do filme.
Mas, outra faceta importante está na abordagem historiográfica, ou seja, a forma como se conta a história cientificamente. O filme destaca o questionamento de se os fatos aconteceram como são contados nos livros. A abordagem sobre segregação social é leve, onde entre os moradores aquele que sabe um pouco mais se julga superior. É o homem de ciência e por conta da ingenuidade do povo, nasce a corrupção. A oportunidade faz o ladrão.
A posse de terras no Brasil é uma questão histórica muito importante, principalmente por conta de que no momento atual ainda é causa de conflitos, de polêmica e de interpretações equivocadas em meio ao senso comum. Um fato é que a propriedade particular de terras nasceu em 1850 com a Lei de Terras, a qual extinguiu as tradições de se cantar as divisas de uma posse de terras, instituiu os cartórios, o latifúndio e a grilagem de documentos. A partir daí inicia no Brasil o processo de expulsão dos moradores primitivos, transformando-os em retirantes, os quais passaram a ser cena comum nos últimos 160 anos.
As comunidades de retirantes, muitas dos quais se instalaram no interior do sertão fugindo da opressão da monarquia, e a partir de 1888, fugindo da opressão da república, sempre guardaram símbolos medievais muito marcantes, como o sino, transportado pelos retirantes por simbolizar sua civilidade, sua religião, sua comunhão. Ele comunica os fatos importantes na vila, além da missa.
Outro questionamento possível é quanto ao mito do desenvolvimento, a ideologia da modernidade, a crença no modelo industrial da relação sociedade-natureza. As populações vitimadas, as culturas substituídas, as migrações, a urbanização e a criação de bolsões de pobreza nas grandes e médias cidades são reflexos desse positivismo irresponsável alicerçado na ciência e na tecnologia, que se julgam donas das vidas das pessoas, transformam a paisagem e produzem o espaço de forma induzida pela acumulação capitalista. A estruturação do território para o desenvolvimento é financiada pelo grande capital para facilitar a instalação dos equipamentos que privilegiam a industrialização e nas comunidades interioranas não se acha muitas dificuldades em arregimentar “pelegos” que geralmente são pessoas fortes e individualistas que vivem numa boa relação artificial com o restante da comunidade. Esses atores são fundamentais para desestruturar as comunidades e prover as informações e a segurança para implantação dos projetos. O processo normalmente é precedido de discursos, dizendo o quanto as populações irão ser beneficiadas, e que poderão viver de turismo, de atividades “ecológicas”, etc.. Mas isso de forma padrão não tem se refletido na realidade, pois as populações locais sempre são substituídas por outras.
Como se iniciam os conflitos? Com o homem acuado, com a intolerância do cientificismo e com a legislação servindo somente ás elites. Aquele índio que atacou com facão o representante do governo, recentemente, é um exemplo de como uma comunidade que ocupa uma área há muitos e muitos anos acabam sem direitos por conta de não possuir alguns papéis registrados nos órgãos oficiais.
Trata-se de questões relevantes e abrangentes, visualizadas facilmente no filme. A trupe de atores atuou de forma extremamente convincente. Muito genuína, e a direção enriqueceu a atuação dos atores que atingiram um alto nível de representação da realidade permeada de drama e comédia.

Denilson Mendes dos Santos
Curitiba, 21 de Julho de 2008